A CRÔNICA DO ESQUECIMENTO: COMO A POLÍCIA PENAL É EXCLUÍDA DO SALÁRIO E DOS HOLOFOTES

A Operação Vérnix, deflagrada em maio de 2026, prendeu uma influenciadora conhecida e bloqueou R$ 327 milhões ligados a um esquema de lavagem de dinheiro do crime organizado. A pergunta que fica, escreve Fábio Jabá, é simples: quem encontrou a primeira prova daquele esquema? A resposta, segundo ele, não estava em nenhum escritório climatizado nem em nenhuma sala de operações sofisticada. Ela apareceu sete anos antes, em 2019, dentro do esgoto da Penitenciária II de Presidente Venceslau, encontrada por policiais penais durante uma vistoria de rotina. Mesmo assim, nas coletivas de imprensa que anunciaram o sucesso da operação, a categoria não recebeu qualquer menção ou crédito.

Esse episódio, para o autor, é apenas o capítulo mais recente de uma história de vinte anos em que a Polícia Penal produz provas decisivas contra o crime organizado e segue sendo tratada como invisível. Tudo começou em 11 de maio de 2006, quando 765 presos da maior facção criminosa de São Paulo, incluindo sua liderança máxima, foram transferidos para a P2 de Presidente Venceslau. No dia seguinte, véspera do Dia das Mães, a facção respondeu com os maiores ataques coordenados da história do estado: 59 agentes públicos mortos e 67 unidades prisionais em rebelião simultânea, com a capital praticamente sitiada. Nos vinte anos seguintes, argumenta Jabá, os comandos da organização continuaram a ecoar de dentro daquelas mesmas celas, e a Polícia Penal permaneceu como a barreira mais exposta e mais próxima desse confronto diário.

Em 2016, foi justamente dentro da P2 que policiais penais interceptaram documentos que revelavam um plano da facção para infiltrar o Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana. O esquema previa o pagamento de uma mesada de R$ 5 mil ao vice-presidente do conselho, com o objetivo de difamar as forças de segurança, usando advogados como intermediários da comunicação entre presos e o mundo exterior. A descoberta resultou na prisão de 32 advogados e do próprio vice-presidente do órgão, batizada de Operação Ethos. Ainda assim, relata o autor, a Polícia Penal encontrou a prova e não foi chamada para a coletiva de imprensa.

Dois anos depois, em 2018, agentes penais tiveram a iniciativa de instalar telas nos dutos de esgoto da unidade para capturar bilhetes que os presos tentavam destruir pela descarga. A inteligência reunida a partir desse método permitiu mapear a estrutura da facção em catorze estados e no exterior, resultou em 63 prisões e embasou uma denúncia de 569 páginas assinada pelo promotor Lincoln Gakiya, levando ao isolamento da cúpula criminosa em presídios federais. Foi a Operação Echelon. Mais uma vez, escreve Jabá, a Polícia Penal viabilizou toda a inteligência e, na coletiva de imprensa, novamente não foi chamada.

Em 2019, durante outra vistoria de rotina, policiais penais acharam novos manuscritos no esgoto da P2. Os bilhetes citavam a "mulher da transportadora" e traziam ordens para um atentado contra o ex-diretor da unidade. Tempo depois, a Polícia Civil constataria que uma transportadora vizinha ao presídio servia para lavar dinheiro do crime, e aqueles bilhetes sustentaram silenciosamente o inquérito que resultaria, em 2021, na Operação Lado a Lado. O padrão se repetiu: prova encontrada pela Polícia Penal, nenhuma chamada para a coletiva.

Em 2023, informações vindas diretamente das galerias da P2 de Presidente Venceslau permitiram à Polícia Federal desarticular um plano para sequestrar e assassinar o senador Sergio Moro, o promotor Lincoln Gakiya e policiais penais, na chamada Operação Sequaz. Na coletiva da Polícia Federal, mais uma vez a categoria ficou de fora; o senador agradeceu publicamente às forças de segurança, mas sem citar os policiais penais em seu discurso. No ano seguinte, dois dos acusados de planejar aquele atentado foram executados a facadas dentro da própria P2, numa "queima de arquivo" que Jabá atribui ao tribunal do crime. Coube à Polícia Penal conter o motim, controlar os danos e enfrentar, na linha de frente do pavilhão, o que ele descreve como um clima de guerra.

A Operação Vérnix, de maio de 2026, fecha esse ciclo de duas décadas: nasceu exatamente dos bilhetes retirados do esgoto em 2019, e a engrenagem de lavagem de dinheiro só começou a ruir, segundo o autor, por causa de "um policial penal com uma lanterna e uma grade de contenção de detritos". Sete anos de trabalho invisível depois, na foto oficial do estouro da operação, a Polícia Penal outra vez não apareceu.

Paralelamente a essa sequência de operações, o texto traça uma cronologia do abandono salarial da categoria. Em 2023, veio o primeiro sinal: enquanto Polícia Civil e Polícia Militar receberam reajustes de até 20%, a Polícia Penal ficou com apenas 6%, uma diferença que Jabá lê como uma mensagem política clara de que a categoria não é prioridade dentro da segurança pública do estado.

Em setembro de 2024, foi aprovada a Lei Complementar nº 1.416/2024, a tão esperada Lei Orgânica da Polícia Penal. Na prática, segundo o autor, ela extinguiu direitos históricos como a sexta parte, o quinquênio e a ajuda de custo, substituindo-os por um subsídio que, apesar de anunciado como modernização, na verdade rebaixou o poder de compra da categoria, configurando o que ele chama de desmonte financeiro disfarçado de avanço. Em 2025, quando a lei entrou em vigor, o contracheque sentiu o golpe e os direitos até então consolidados foram, nas palavras do autor, sepultados.

Entre março e abril de 2026, o governo estadual enviou o Projeto de Lei 226/2026, propondo um novo reajuste de 10% para as forças de segurança. Polícia Militar e Polícia Civil foram contempladas; a Polícia Penal, deixada de fora outra vez. O deputado Carlos Giannazi apresentou uma emenda para incluir a categoria no reajuste, mas a base do governo rejeitou a proposta e o projeto foi aprovado sem os policiais penais. Em audiência na Assembleia Legislativa, no dia 8 de abril de 2026, o secretário da Administração Penitenciária, Marcello Streifinger, justificou a exclusão alegando limitação orçamentária. Jabá rebate classificando essa limitação como seletiva, já que o orçamento parece se mostrar flexível quando se trata de outras polícias e rígido apenas quando se trata da sua categoria.

Ao fazer um balanço do que o governo entregou e do que deixou de entregar, o autor reconhece alguns avanços, mas todos com ressalvas. Os Grupos de Intervenção Rápida e o Comando de Intervenção Rápida foram implantados, porém com redução de diárias e outras restrições impostas pela secretaria. Canis operacionais foram criados, mas funcionam sem a estrutura ideal. Um concurso público foi lançado em outubro de 2025, com 1.100 vagas, mas o salário inicial de R$ 4.695,60 é descrito como defasado. Do lado do que não veio, ele cita o reajuste digno, negado e vetado tanto em 2023 quanto em 2026; a ausência de qualquer reposição para as perdas de direitos trazidas pela Lei Complementar 1.416/2024; e a falta de reconhecimento de fato, sem espaço nos discursos, nas fotos oficiais ou no topo da segurança pública estadual.

Há, contudo, uma exceção que o autor destaca como prova de que o reconhecimento é possível. O promotor de Justiça Lincoln Gakiya, do GAECO de Presidente Prudente, vive sob escolta armada há mais de vinte anos, com sua morte encomendada por facções criminosas, e foi ele quem assinou o pedido de transferência das lideranças em 2018. Gakiya fez questão de reconhecer publicamente a Polícia Penal como uma das principais e mais vitais parceiras no combate ao crime organizado, ciente de que, sem os bilhetes recolhidos no esgoto e sem as vistorias minuciosas feitas pelos agentes penais, as 569 páginas de suas denúncias seriam apenas folhas em branco. Para Jabá, o reconhecimento de quem está na linha de tiro vale mais do que qualquer promessa de campanha, mas essa única exceção não pode esconder a regra: o sistema político continua tratando a categoria como fantasmas que guardam as chaves do estado.

O texto também reforça que os avanços institucionais conquistados pela categoria, como a mudança da farda, a renomeação de "agente penitenciário" para "policial penal" e a inclusão da função no artigo 144 da Constituição Federal por meio da PEC 372/2017, não foram presentes de nenhum governo. Segundo Jabá, esse mérito pertence à regularidade, ao suor e ao sangue de quem trabalha no chão de fábrica do sistema prisional. Ele argumenta que o governo evita admitir a real importância da categoria porque, se o fizesse, teria de confessar que a estabilidade da segurança pública paulista depende diretamente de homens e mulheres que atuam sem estrutura adequada, com salários defasados e direitos retirados. Para ele, segurança de verdade não se faz com coletivas cenográficas ou apresentações de slides bem produzidas, e sim no silêncio da galeria, na firmeza de quem tranca o corredor e no enfrentamento diário do perigo, olho no olho.

Jabá dedica um trecho à análise de dois vídeos das coletivas de imprensa da Operação Vérnix. No primeiro, do governador Tarcísio de Freitas, ele observa uma hesitação perceptível justamente no momento de detalhar o início das investigações: o nome "Polícia Civil" sai de forma fluida e natural, enquanto a menção à Polícia Penal aparece com uma pausa nítida, como se fosse lembrada de última hora, um acréscimo protocolar apenas para "cumprir tabela". No segundo vídeo, da coletiva oficial com a cúpula da segurança pública, incluindo o representante da Secretaria de Segurança Pública, o cenário é ainda peor: a omissão deixa de ser hesitação e se torna apagamento completo. Fala-se da engenharia financeira do esquema, do DEINTER 8, elogia-se delegados e exalta-se o Ministério Público, mas a força que efetivamente colocou a mão na massa no esgoto da P2 em 2019 simplesmente não é mencionada. Para o autor, a categoria foi blindada para fora dos créditos em praça pública, o que expõe a hipocrisia da gestão: na hora de cobrar risco, a Polícia Penal está na linha de frente; na hora de dividir os louros do sucesso e conceder reajustes justos, ela se torna invisível.

Diante desse padrão, o autor descreve um ciclo de exploração que se repete a cada operação: o policial penal encontra a prova material dentro do presídio, o GAECO e as demais polícias assumem os holofotes da inteligência, a operação é deflagrada com festejos na mídia, e o policial penal volta ao plantão seguinte sem crédito, sem reajuste e ainda tendo que lidar com a ala tensionada pelas consequências da própria operação.

Para romper esse ciclo, Jabá apresenta quatro propostas concretas. A primeira é a inclusão institucional, com participação obrigatória de representantes da Polícia Penal nas coletivas de imprensa sempre que a operação tiver origem dentro do sistema prisional. A segunda é a reparação salarial imediata, com a inclusão automática da categoria em qualquer política futura de reajuste das forças de segurança e a revisão das perdas provocadas pela Lei Complementar 1.416/2024. A terceira é dar voz à inteligência produzida pela categoria, com a criação de canais oficiais de comunicação para divulgar as ações e apreensões feitas pela Polícia Penal. A quarta é a valorização real da carreira, com salários atrativos e compatíveis com os riscos assumidos, já que hoje os salários iniciais praticamente se equiparam ao piso de funções de risco muito menor.

O texto termina com uma pergunta direta: se um promotor com sentença de morte decretada pelo crime organizado tem a coragem de reconhecer publicamente o trabalho da Polícia Penal, por que o governo do estado se escuda em hesitações de discurso e em desculpas orçamentárias que só valem para essa categoria? Jabá encerra afirmando que não estão pedindo favores, e sim exigindo o que consideram um direito: salário justo e o lugar na história que eles próprios escreveram com sua coragem.

Matéria originalmente publicada no blog "Diálogo Digital com Fábio Jabá" em 21 mai 2026. Ler a versão original no blog
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