Acolhimento: Ações de prevenção dentro do ambiente de trabalho

Este post do blog reproduz uma transmissão em vídeo do quadro "Diálogo Digital com Fábio Jabá", ao vivo no canal do sindicato no YouTube, dedicada ao Setembro Amarelo e às ações de prevenção ao suicídio dentro do ambiente de trabalho no sistema prisional paulista. Fábio Jabá conduziu o encontro com a mediação de Veridiana e reuniu três convidados diretamente ligados ao tema: a psicóloga Fabiana, diretora do setor de saúde do servidor na Regional Oeste da SAP; Cássio, agente de segurança penitenciária lotado na Unidade 1 de Mirandópolis e um dos responsáveis por levar aos presídios um programa de gestão emocional; e Kátia, agente penitenciária que atua como multiplicadora desse mesmo programa dentro das unidades.

Fabiana abriu sua fala se apresentando como responsável, na Regional Oeste, pelo que a categoria costuma citar pela sigla que soa como "quevidas": o Centro de Qualidade de Vida e Saúde do Servidor. Ela explicou que esse serviço nasceu em 2002, quando a secretaria criou um núcleo voltado ao atendimento do servidor, e que, em 2013, um decreto reorganizou toda essa área, transformando o antigo núcleo no Grupo de Planejamento e Gestão da Qualidade de Vida e Saúde do Servidor, com sede em São Paulo e núcleos equivalentes em cada regional do estado.

Segundo Fabiana, esse serviço tem duas frentes de atuação nas unidades prisionais: de um lado, as ações de saúde e qualidade de vida propriamente ditas; de outro, a coordenação da Cipa, a comissão interna de prevenção de acidentes, presente em cada presídio. Além disso, a Regional Oeste foi pioneira ao criar, ainda antes de outras regiões adotarem o modelo, um grupo de acolhimento formado por servidores da própria unidade, preparados para apoiar colegas em momento de crise e para encaminhar demandas até a equipe técnica quando necessário.

Ela detalhou as limitações concretas de sua equipe: apenas dois enfermeiros para atender todas as unidades da regional, ela própria como psicóloga sem estagiários no momento por fim de contrato, um dentista com consultório montado mas cuja cadeira estava quebrada e em manutenção, e dois servidores administrativos de apoio. Quando um caso é mais grave e não pode esperar o reparo do equipamento, o dentista, que também é professor na Unoeste, encaminha o atendimento à faculdade, sob supervisão de alunos. A distância também é um obstáculo real: a regional faz fronteira com Minas Gerais e reúne unidades muito afastadas entre si, o que torna difícil, por exemplo, trazer até Presidente Venceslau um servidor em crise que esteja em Rio Preto, Riolândia ou Paulo de Faria. Por isso a equipe já pensa em abrir novos polos de atendimento no futuro, embora ainda precise antes estruturar melhor a própria base.

Para compensar a falta de médico clínico e de mais psicólogos internos, a Regional Oeste montou uma rede própria de psicólogos e psiquiatras parceiros para encaminhamento externo, com lista de nomes, telefones e endereços fixada nas unidades, inclusive picotada em tiras individuais para preservar a privacidade de quem preferir não expor que está buscando ajuda. O servidor pode agendar diretamente com o profissional, sem precisar passar pelo setor, embora a equipe também intermedeie quando alguém não consiga fazer esse contato sozinho.

A partir daí a conversa migrou para o tema central da live: o suicídio ainda funciona, segundo os participantes, como um tabu dentro do ambiente de trabalho, justamente porque raramente sabemos o que o colega ao lado está de fato enfrentando. Fabiana insistiu que conversar é a ferramenta mais eficaz de prevenção e lembrou que estudos apontam que cada suicídio impacta diretamente a vida de cerca de outras seis pessoas próximas, entre familiares e colegas, o que reforça por que todos, não apenas o setor de saúde do servidor ou o sindicato, têm parte na responsabilidade de acolher.

Fabiana também desmontou a ideia de um perfil único de quem chega a tirar a própria vida: o suicídio é multifatorial, envolvendo tanto quadros diagnosticados, como depressão ou transtorno bipolar, quanto situações de sofrimento agudo em pessoas sem qualquer histórico de doença mental. Muitas vezes a pessoa em sofrimento usa o bom humor como máscara justamente para não expor a dor, com medo de não ser compreendida ou de preocupar quem ama, o que desfaz o estereótipo de que só quem chora ou se isola estaria em risco.

Uma imagem usada por Fabiana resumiu bem o argumento: quem tenta suicídio não quer necessariamente deixar de viver, quer deixar de sofrer; é como estar dentro do olho de um furacão, num pico de dor tão intenso que, com poucos recursos internos e sem apoio externo percebido, a pessoa busca qualquer saída para aquela dor. Ela destacou ainda que a maior parte dos casos é impulsiva, decidida em frações de segundo, o que torna a prevenção mais difícil e reforça a importância de agir antes, no dia a dia, e não apenas quando o sinal já é evidente.

Sobre o que fazer na prática, tanto Fabiana quanto Cássio insistiram na força da presença constante e da empatia genuína, no sentido de se colocar de fato no lugar do outro sem julgamento. Fabiana disse acreditar que um abraço demorado pode ser mais poderoso do que qualquer frase de conforto, e contou já ter ouvido relatos de pessoas que atribuem a esse tipo de gesto simples terem se sentido amparadas o suficiente para não avançar num momento de crise. Ao mesmo tempo, ela alertou que a ajuda profissional continua sendo indispensável e não deve ser substituída pelo apoio informal de colegas e familiares.

Para quem precisar de apoio imediato, Fabiana deixou à disposição o telefone do centro de qualidade de vida da própria regional, o telefone do CVV, o Centro de Valorização da Vida, que atende pelo número 188, e até seu celular pessoal, reforçando que prefere ser procurada diretamente do que saber que alguém ficou sem nenhum canal de ajuda num momento de angústia mais aguda.

A mediadora Veridiana trouxe um contraponto importante à discussão, questionando até que ponto campanhas como o Setembro Amarelo, ao colocarem o peso todo sobre a resiliência individual, não acabam isentando o próprio ambiente de trabalho de sua parcela de responsabilidade. Ela lembrou que more das vezes o adoecimento psíquico da categoria está diretamente ligado às condições do trabalho penitenciário: insalubridade, situações de assédio, pressão econômica e o alto grau de invisibilidade social de uma profissão pouco compreendida por quem está de fora.

Cássio reforçou esse ponto ao descrever o trabalho do agente penitenciário como muito mais amplo do que "manter presos trancados", exigindo entrega física e emocional constante em um ambiente reconhecidamente insalubre e perigoso, sustentado por um trabalho sempre coletivo, no qual ninguém, do diretor ao servidor da ponta, atua isoladamente.

Ele relatou um caso concreto que o marcou: um colega de Jundiaí, chefe de setor bem avaliado por todos, que tirou a própria vida com uma arma de fogo em casa após uma discussão com a esposa. Cássio usou o episódio para chamar atenção para o acesso a armas de fogo por profissionais de segurança como fator que torna o ato ainda mais imediato e irreversível.

Ele também compartilhou números da própria vivência sindical: o pico de suicídios registrados pelo sindicato, segundo sua lembrança, ocorreu entre 2016 e 2018, quando o total anual chegou a cerca de catorze casos, número que teria caído nos anos seguintes à medida que o tema passou a ser mais discutido abertamente. Para ele, dar voz ao assunto e multiplicar informação, hoje facilitado por grupos de WhatsApp com centenas de participantes e por um canal de YouTube que já reunia perto de vinte mil inscritos, foi decisivo para essa redução, na mesma lógica de disseminação usada, para o mal, pelas fake news.

Cássio admitiu ainda que o meio é predominantemente masculino e, em suas palavras, machista, com dificuldade histórica de verbalizar sentimentos; contou que ele próprio carregava preconceito com terapia até se abrir para o próprio tratamento, e defendeu que buscar ajuda psicológica não é sinal de fraqueza.

Outro ponto abordado foi o desgaste de servidores removidos para trabalhar longe de casa, às vezes por anos, e que ao finalmente conseguirem a remoção de volta enfrentam um reencontro difícil: a família se adaptou à ausência, os filhos cresceram, e o retorno pode gerar uma sensação de estranhamento e até depressão, com a pessoa questionando por que voltou se não se reconhece mais naquele lugar. Cássio defendeu que olhar para o colega além do uniforme, sabendo que cada um enfrenta jornadas duplas e realidades familiares que não aparecem no ambiente de trabalho, e cultivar gestos simples e constantes, como uma mensagem diária de bom dia, ajuda a construir a confiança necessária para que alguém se sinta à vontade para pedir ajuda quando precisar.

A conversa avançou então para o programa Gestão da Emoção, criado pelo médico e escritor Augusto Cury e adotado pelo sindicato há cerca de dois anos como ferramenta de prevenção. Fabiana contou que conheceu a proposta em 2015, por meio de uma amiga que trabalhava na Funap, e que o projeto piloto começou naquele mesmo ano na Penitenciária de Assis, primeiro com um trabalho de sensibilização junto à direção da unidade e, depois, estendido aos servidores e também à população carcerária, já que o bem-estar dos sentenciados também repercute no clima geral da unidade.

O programa é dividido em módulos de treze encontros; o primeiro módulo em Assis terminou em março de 2017, dando início a um segundo módulo, sempre conduzido diretamente por profissionais do Instituto Augusto Cury para que eles próprios conhecessem a rotina prisional antes de formar multiplicadores locais. Os resultados positivos, com mudanças de comportamento relatadas pelos próprios participantes, levaram a secretaria a formalizar uma parceria gratuita com o instituto, sem custo para o estado, e a planejar a expansão do programa para as demais regionais, processo interrompido justamente pela pandemia antes que algumas regiões conseguissem começar.

Na Regional Oeste, além de Assis, o programa já havia chegado a mais nove unidades prisionais, com doze multiplicadores formados, entre eles Kátia, e outro grupo de cerca de trinta e cinco candidatos selecionados para uma nova rodada de capacitação. Fabiana destacou a adesão especialmente forte na unidade de Pracinha, onde as turmas ficavam sempre cheias de servidores interessados.

Ela explicou que o programa se apoia na teoria da inteligência multifocal de Augusto Cury e é estruturado em encontros que tratam de autoconhecimento, da ideia de cada um ser autor da própria história, de gerenciamento de pensamentos e emoções, do papel da memória, da construção de relações saudáveis, da arte do diálogo, da expressão dos próprios sentimentos, da capacidade de contemplar o belo, da criatividade, da liderança e da resiliência. A lógica, segundo ela, é agir antes do adoecimento se instalar, e não apenas tratar depois que ele já apareceu.

Kátia, ao relatar sua experiência como multiplicadora nas unidades onde atuou, resumiu a proposta do programa com uma frase que se tornou o fio condutor de sua fala: a mudança tem que começar em cada um antes de se voltar para o outro, numa espécie de "faxina interna" necessária antes de qualquer transformação nas relações de trabalho. Ela contou o caso de um colega que, após participar dos encontros, passou a lidar de outra forma com o estresse acumulado no trabalho: em vez de chegar em casa carregado de irritação e fechado para a família, aprendeu a desligar do expediente e a enxergar o momento de voltar para casa como reencontro, e não como extensão do problema.

Encerrando a live, Kátia e Fabiana pediram que os servidores recebam o programa Gestão da Emoção com abertura quando ele chegar à sua unidade, participando ao menos do primeiro encontro antes de formar uma opinião, e reforçaram, ao lado de Cássio, o convite para que mais pessoas se candidatem a integrar a Cipa em suas unidades, já que o trabalho de poucos cipeiros não é suficiente para atender a uma categoria que soma perto de dez mil servidores na SAP.

Fábio Jabá fechou o encontro agradecendo às convidadas e a Veridiana, comentando que o sindicato tenta suprir uma lacuna de divulgação que, em sua avaliação, o próprio estado deixa em aberto, e destacando o crescimento do canal do sindicato no YouTube como ferramenta de multiplicação de informação sobre saúde mental da categoria. Ele também observou, de forma pessoal, que a pandemia, apesar de toda a tragédia que trouxe, teve como efeito colateral fazer muita gente desacelerar e voltar a olhar para a própria casa e para a própria família, algo que a rotina anterior dificilmente permitia, e despediu-se convidando o público a acompanhar as próximas lives sobre o tema.

Matéria originalmente publicada no blog "Diálogo Digital com Fábio Jabá" em 23 set 2020. Ler a versão original no blog
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