
O autor abre a carta dirigindo-se diretamente ao novo ministro da Justiça, saudando-o como colega da área de segurança pública e também como cidadão. Ele deseja sucesso ao ministro nessa que classifica como talvez a mais importante missão de sua carreira como servidor público, reconhecendo sua longa trajetória no campo jurídico e seu histórico de atuação em defesa de populações vulneráveis. Ainda assim, adverte que os obstáculos que o ministro enfrentará na segurança pública serão enormes, e que só uma mudança profunda e estrutural permitirá que o Brasil se torne, de fato, um país mais seguro.
Em seguida, o autor comenta os episódios de violência ocorridos no Equador, descrevendo-os como alarmantes, mas nada surpreendentes: seriam o resultado direto de um sistema penitenciário que se degradou ao extremo. Para ele, o colapso equatoriano é a consequência lógica de decisões equivocadas que se acumularam por décadas, tanto naquele país quanto no Brasil. E é justamente esse cenário que agora está sob a responsabilidade do ministro, à frente da condução da política nacional de segurança pública.
O autor lembra que cabe ao ministro pôr em prática a decisão do Supremo Tribunal Federal, tomada em outubro do ano anterior, que reconheceu um "estado de coisas inconstitucional" no sistema prisional do país. Será dele a tarefa de formular um plano nacional que reformule a maneira como o Brasil aplica suas penas a quem comete crimes.
Ele defende que os recursos do Fundo Penitenciário sejam finalmente usados como deveriam: para suprir a falta de servidores e para garantir o mínimo necessário dentro das unidades, como acesso à água, condições de higiene e alimentação adequada. Segundo o autor, é justamente a ausência desses itens básicos que costuma detonar motins, rebeliões e represálias, com policiais penais e civis pagando o preço.
Na sequência, argumenta que uma política de segurança pública eficaz não se resume a aumentar o número de policiais nas ruas. É preciso estabelecer parâmetros claros e objetivos para que as prisões cumpram efetivamente sua função de ressocializar. Hoje, segundo ele, quase sem exceção, as unidades prisionais fazem o contrário: destroem indiscriminadamente detentos, seus familiares e também os próprios servidores que ali trabalham.
O autor insiste que é preciso, também, cuidar de quem cuida. Ele chama atenção para uma verdadeira epidemia de sofrimento psíquico entre os agentes do sistema penitenciário, citando um levantamento do Sindicato dos Funcionários do Sistema Prisional de São Paulo (SIFUSPESP) segundo o qual os casos de suicídio entre esses profissionais aumentaram 66% em 2023. Essa instabilidade, afirma, só vem crescendo ano após ano.
Ele cita o exemplo de São Paulo, o estado mais rico do país, onde os servidores responsáveis pela maior população carcerária do Brasil convivem diariamente com medo e insegurança. O autor resgata a memória de 2006, quando o domínio de facções criminosas sobre o estado provocou 564 mortes, a maioria de civis, e observa que, quase duas décadas depois, pouca coisa mudou de fato.
Por fim, o autor conclui que os acontecimentos recentes no Equador servem de alerta: sem uma reorganização completa do sistema prisional, a segurança pública de verdade continuará fora de alcance. Ele expressa a esperança de que o novo ministro assuma o papel de maestro dessa transformação, articulando todos os entes públicos estaduais para transformar o discurso de segurança em prática concreta, algo que, segundo ele, todo cidadão brasileiro merece.