Marc Souza: Nossas instituições vive uma crise moral.

Todos os dias surgem novos escândalos de corrupção nos noticiários, gerando no povo uma sensação enorme de insegurança e um descrédito profundo em relação aos três poderes.

O problema é que nossos governantes, como de costume, buscam sempre o caminho mais fácil para escapar das crises que eles mesmos criam.

E o resultado é que a conta acaba sobrando para a população pagar. A reforma da previdência é o exemplo mais evidente disso.

Mas o autor deixa claro que não é esse o ponto central de sua reflexão.

O que ele quer discutir é a nossa própria postura, a forma como nós, cidadãos, reagimos a esse tipo de situação.

As notícias de corrupção não são novidade, o cenário e os protagonistas praticamente se repetem ao longo do tempo. Quando alguém sai de cena, é substituído por um filho, um sobrinho, um enteado ou outro parente próximo, ou seja, na prática nada se transforma de verdade.

Enquanto isso, nós, o povo, assistimos a tudo com passividade, como quem acompanha o enredo de um filme, seja de terror ou de uma novela da Globo.

Os anos se sucedem e o quadro permanece sempre o mesmo.

O mais grave é que fomos criados dessa maneira: educados para observar tudo com resignação, sem agir, acomodados no sofá de casa em frente à televisão.

Os mais indignados chegam a reagir, pegam o computador, o celular ou o tablet e desabafam nas redes sociais. Criticam, ofendem, defendem argumentos, apontam soluções, mas isso é tudo o que fazem.

Ninguém realmente se mobiliza. Ninguém sai da poltrona para de fato agir.

Ali, no conforto de casa, encontramos respostas para todos os problemas do país, seja com textos bem escritos e convincentes, seja com palavras carregadas de revolta contra o sistema estabelecido.

No conforto de casa, criticamos o presidente, os deputados, os senadores, os governadores, os prefeitos e os vereadores.

No conforto de casa, criticamos o padre da nossa paróquia, o pastor da nossa igreja, a liderança do nosso bairro e os representantes do nosso sindicato.

No conforto de casa, criticamos nosso próprio trabalho, nossos colegas, nosso chefe e até o chefe dos outros.

Mas a coisa para exatamente aí.

No momento em que temos realmente o poder de mudar algo, quando surge a chance de sair do campo das ideias e passar para a ação concreta, nós nos calamos e ficamos parados.

E, claro, reclamamos. Reclamamos bastante.

Voltamos a ter ótimas ideias, voltamos a nos indignar e a praguejar, mas sempre dentro de casa, no conforto do nosso sofá.

E assim tudo permanece igual. E, do jeito que as coisas vão, continuará igual para sempre.

De que vale chamar nossos governantes de corruptos e ladrões se, quando temos a chance de substituí-los por gente nova e honesta através do voto e da participação, simplesmente não agimos? De que vale criticar os partidos políticos se não nos dispomos a integrá-los e a contribuir com nossas próprias propostas? De que vale reclamar do prefeito e dos vereadores porque a cidade está sujade se nós mesmos jogamos lixo na rua? De que vale criticar os sindicalistas se nem participamos da vida do nosso sindicato?

É assim que somos: excelentes em cobrar as pessoas errdas, excelentes em criticar tudo e todos, principalmente quando estamos protegidos no conforto de casa.

Mas, quando somos chamados a agir, quando nos convidam a participar de projetos e a lutar pelo que dizemos acreditar, preferimos o conforto do lar.

E nada muda. Tudo continua do mesmo jeito.

A única coisa que não fica igual é a nossa timeline no Facebook.

O texto é assinado por Marc Souza, aspirante da Penitenciária de Dracena.

Matéria originalmente publicada no blog "Diálogo Digital com Fábio Jabá" em 15 abr 2017. Ler a versão original no blog
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