Muito prazer, sou Agente Penitenciário

O texto se apresenta como o depoimento de um agente penitenciário que assume, sem meias palavras, ser o profissional apontado nas notícias daquele período: aquele que participou da invasão ao Ministério da Justiça e da invasão ao Congresso que travou a votação da Reforma da Previdência. Ele diz que não sente orgulho do episódio, mas defende que, do seu ponto de vista, não havia outro caminho a seguir.

Reconhece que, para quem não o conhece, é difícil aceitar essa explicação, já que a sociedade não acompanha sua rotina nem vê de perto as ações da categoria. Ainda assim, repete que a atitude foi necessária, mesmo sabendo que muitos a consideram condenável.

Em seguida se define como um herói, ainda que sem uniforme vistoso, sem salvar vidas nas ruas como bombeiros ou policiais e sem prender criminosos. Seu posto de trabalho fica normalmente fora das cidades, em áreas isoladas, protegido por muralhas altas de concreto, num ambiente frio, sombrio e triste, à margem de uma sociedade que ignora as dificuldades que ele enfrenta e que nem o reconhece quando cruza com ele na rua.

Ele afirma exercer a segunda profissão mais perigosa do mundo e cita um estudo da Universidade de São Paulo segundo o qual a expectativa de vida de um agente penitenciário seria de apenas 45 anos; ele, na época, tinha 40. Relata que o próprio filho, emocionado até as lágrimas, chegou a perguntar se era verdade que o pai só viveria até essa idade.

Descreve o cotidiano da função: condições de trabalho insalubres, pressão psicológica constante, ameaças de morte, agressões físicas e, em casos extremos, assassinatos de colegas apenas por exercerem o cargo.

Detalha a superpopulação nos presídios: celas projetadas para 12 pessoas chegam a abrigar 30 ou 40, muitas já doentes, e as que ainda estão sadias sabem que adoecer é apenas questão de tempo. Cita como exemplo uma unidade prisional com capacidade para 710 presos que na prática chega a abrigar 2.000 ou mais.

Chama atenção também para o déficit de pessoal: enquanto a ONU recomenda a proporção de um agente para cada cinco presos, no estado onde ele trabalha essa relação seria de um agente para cada dez. A partir disso questiona se, estando exposto a uma proporção ainda peor do que a considerada ideal, ele já não deveria se considerar um sobrevivente.

Retoma sua apresentação justamente sob esse rótulo: diz sobreviver diariamente ao crime organizado, à falta de efetivo, à superpopulação carcerária e às doenças que ela provoca, à omissão do poder público diante desse cenário e a salários defasados, sem reajuste pela inflação havia mais de três anos.

Contrasta sua rotina com a do leitor comum: enquanto este dorme tranquilo em casa, ele passa noites no frio de uma penitenciária vigiando para que os criminosos mais perigosos do país não fujam e voltem a ameaçar a tranquilidade de todos. Enquanto o leitor está na praia com amigos e família, ele é ameaçado e agredido dentro da unidade prisional por tentar, apesar das condições precárias oferecidas pelo estado, garantir a segurança que a população merece.

Conta que já passou horas com uma faca encostada no pescoço, com a vida nas mãos de presos perigosos, enquanto, do outro lado, o cidadão comum assiste tranquilamente a uma partida de futebol tomando uma cerveja gelada. Pede que isso não seja lido como queixa ou como acusação contra o leitor; a intenção, segundo ele, é apenas se apresentar.

Admite que a imagem de agentes penitenciários invadindo prédios públicos de forma desesperada pode ter deixado uma impressão negativa, mas reafirma o orgulho pela profissão, uma das mais antigas da história, que segundo ele carece de reconhecimento.

Defende que a categoria não pode continuar sendo abandonada, da mesma forma que os presos que custodiam também são deixados à própria sorte pelo poder público e pela sociedade. Descreve o trabalho como perigoso e insalubre, capaz de esgotar as forças físicas e, principalmente, psicológicas, e de tirar vidas de forma cruel.

Por isso, segundo ele, o pedido da categoria é modesto: reconhecimento como classe trabalhadora e a inclusão dos agentes penitenciários na aposentadoria especial, de modo que quem sobreviver à profissão possa viver os últimos anos junto da família, em paz, como os heróis que foram ao longo da carreira.

O texto se encerra retomando a pergunta inicial, agora perguntando se o leitor já o conhece: ele é um agente penitenciário que não vive para invadir prédios públicos, mas para contribuir para uma vida melhor para a sociedade, e reconhecimento é a única coisa que pede.

O relato é assinado por Marc Souza, identificado como diretor de base e Asp da Penitenciária de Dracena, e foi publicado no Blog do Fábio Jabá.

Matéria originalmente publicada no blog "Diálogo Digital com Fábio Jabá" em 06 mai 2017. Ler a versão original no blog
Todas as notícias Some à base