O Dia de Tiradentes e a Construção Social da Memória no Brasil

Todo 21 de abril o calendário nacional reserva um feriado para lembrar Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, mártir da Inconfidência Mineira. A data se tornou feriado nacional ainda em 1890, pouco depois de o Brasil se tornar República, e serve para relembrar o esforço histórico de romper com o domínio de Portugal e conquistar a liberdade.

Mas essa comemoração vai além do seu significado histórico direto: ela é também um exemplo de como uma sociedade fabrica e maneja sua memória coletiva com objetivos simbólicos e políticos. A sociologia tem muito a dizer sobre isso. Émile Durkheim, por exemplo, via nos feriados de caráter cívico verdadeiros instrumentos de coesão social. Sob essa ótica, o feriado de Tiradentes funcionaria como um rito coletivo que renova, na população, sentimentos como o amor à pátria e o apreço pela liberdade.

Nessa leitura, Tiradentes se transforma numa espécie de totem secular: uma referência simbólica em torno da qual o país reafirma quem é. Já Maurice Halbwachs chama a atenção para o fato de que a memória coletiva nunca surge espontaneamente, ela é construída por instituições como o Estado, as escolas e os meios de comunicação. Foi assim que a República remodelou a imagem de Tiradentes, transformando-o em herói para sustentar ideais de liberdade e justiça, ao mesmo tempo em que apagou da narrativa oficial outros episódios de resistência, como levantes de povos indígenas e de pessoas escravizadas.

Michel Foucault ajuda a entender essa seleção do que é lembrado e do que é esquecido, já que para ele a própria escrita da história funciona como instrumento de poder. Elevar Tiradentes à condição de mártir cumpre a função de validar uma versão oficial dos fatos, oferecendo um modelo de resistência que a própria ordem estabelecida pode aceitar e endossar. Pierre Bourdieu complementa esse raciocínio ao mostrar que esse tipo de representação gera capital simbólico, o que, no caso de Tiradentes, reforça a legitimidade de instituições que o adotam como patrono, como as polícias.

Autores da sociologia crítica brasileira, entre eles Florestan Fernandes e Jessé Souza, vão além e alertam que essa celebração da liberdade em nível simbólico pode mascarar desigualdades sociais concretas que persistem no país. Ou seja, o discurso em torno do heroísmo e da luta por justiça nem sempre corresponde a avanços reais na vida da população. Por isso, o feriado corre o risco de se converter em uma espécie de teatro democrático, que presta reverência a um passado de luta pela liberdade sem que isso se traduza em mudanças efetivas no presente.

Em suma, o Dia de Tiradentes não deve ser visto apenas como uma data no calendário, mas como um retrato das maneiras pelas quais a sociedade constrói, remodela e usa sua própria história. Pensar criticamente sobre essa celebração é uma oportunidade para perguntar o que a sociedade escolhe lembrar, o que prefere esquecer e, principalmente, por que faz essas escolhas. Assim, a memória deixa de ser apenas um exercício de recordação e passa a funcionar também como instrumento de crítica e de transformação social.

Matéria originalmente publicada no blog "Diálogo Digital com Fábio Jabá" em 21 abr 2025. Ler a versão original no blog
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