O teatro da classificação: o gesto, o discurso e o vazio de 4 anos

O governador Tarcísio de Freitas publicou nas redes sociais uma manifestação enfática classificando o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas armadas contra o povo brasileiro, e não mais como simples facções criminosas. Junto com a declaração vieram elogios ao senador Flávio Bolsonaro, apontado como articulador dessa classificação dentro do governo Trump, nos Estados Unidos.

O gesto é forte, a foto é bonita, mas o problema é o que fica de fora do enquadramento: depois de quatro anos de mandato, com maioria confortável na Assembleia Legislativa e um orçamento robusto à disposição, o governo de São Paulo nunca apresentou um plano estruturado para desarticular o PCC exatamente onde a organização nasceu e de onde continua comandando sua operação: dentro do sistema prisional paulista.

Colocar-se ao lado de uma medida internacional de efeito espetacular é mais fácil do que enfrentar o problema em casa. É esse contraste, entre o gesto grandioso para fora e a ausência de plano para dentro, que estrutura toda a crítica do texto.

A dança do discurso

O texto reconstrói a oscilação do próprio governador ao falar sobre o PCC ao longo do tempo, o que revela mais uma dança conforme a conveniência política do momento do que uma posição consistente. Em setembro de 2025, diante do episódio das mortes por metanol adulterado, Tarcísio negou qualquer participação do PCC, afirmando não haver evidências de envolvimento da facção e que "nem tudo é PCC". Poucos meses depois, em dezembro de 2025, o discurso já era outro: o governador chegou a admitir que a facção "não controla mais os presídios", uma afirmação que soa contraditória com a alegação anterior de que a organização não estaria por trás dos problemas do sistema. Agora, em maio de 2026, a retórica sobe mais um degrau e o PCC passa a ser descrito como uma força terrorista transnacional. Três versões diferentes, em menos de um ano, para descrever o mesmo adversário.

Os números que a publicação não mostra

Enquanto o discurso muda de tom, a realidade dentro dos presídios permanece a mesma, e os números contam uma história que a postagem no Instagram não conta. São Paulo tem hoje 228.122 pessoas presas, vigiadas por apenas 23.282 policiais penais em atividade. Isso equivale a um agente para cada 16 detentos, quando o parâmetro técnico recomendado é de um agente para cada cinco. O déficit de pessoal chega a 38%, com milhares de vagas represadas, e para tentar tapar esse buraco o sistema depende de 26.700 jornadas extraordinárias por mês, um volume de horas extras que supera o próprio efetivo ativo. Para agravar o quadro, a corporação perdeu 261 policiais penais só nos três primeiros meses de 2026.

O próprio secretário da Administração Penitenciária, Marcello Streifinger, confirmou que não haverá reposição de efetivo em 2026, e que novos concursados só devem chegar em 2028, ou seja, depois do fim do atual mandato. Some-se a isso o fato de que a Polícia Penal foi deliberadamente deixada fora dos reajustes salariais concedidos a outras forças de segurança do estado, e que o governo paulista não aderiu ao programa federal Brasil Contra o Crime Organizado. É difícil sustentar o discurso de guerra ao crime organizado enquanto a categoria responsável por vigiar exatamente esse crime dentro dos muros é a que fica sem reforço, sem reajuste e sem adesão a parcerias federais disponíveis.

O alerta dos especialistas, ignorado

O texto também traz a visão de quem lida com isso todos os dias no campo jurídico. O promotor Lincoln Gakiya, referência no combate ao PCC, alertou publicamente que classificar as facções como organizações terroristas pode, na prática, prejudicar o próprio combate a elas. O raciocínio é técnico: ao mudar o enquadramento jurídico para terrorismo, investigações que hoje se apoiam na cooperação entre órgãos brasileiros e agências federais americanas passariam a depender também da CIA, agência historicamente reconhecida por compartilhar pouca informação com parceiros estrangeiros. Em vez de fortalecer a investigação, o novo enquadramento arrisca burocratizá-la e isolá-la.

Os aliados que remam na direção contrária

Outro ponto levantado é a incoerência de quem apoia a medida. O deputado Guilherme Derrite, ex-secretário de Segurança Pública de São Paulo, é citado por ter alterado legislação de um jeito que dificultou o confisco de bens de criminosos e reduziu poderes investigativos, na contramão do discurso de combate duro ao crime organizado que agora se defende publicamente. Já o senador Flávio Bolsonaro, elogiado por Tarcísio como o articulador da classificação terrorista nos Estados Unidos, não se posicionou em defesa dessa mesma classificação quando o tema foi votado no Senado brasileiro. Ou seja, aplaude-se fora do país uma bandeira que não foi sustentada com o mesmo vigor dentro de casa.

Cadê o plano?

A conclusão do texto é direta: enfrentar de verdade uma organização que nasceu dentro dos presídios de São Paulo, que se fortaleceu justamente pelo abandono do Estado nessas unidades, e que hoje movimenta bilhões de reais, exige muito mais do que uma declaração enfática nas redes sociais ou um aceno a decisões tomadas em Washington. Exige recompor o efetivo da Polícia Penal, valorizar essa categoria com reajustes e concursos, e garantir presença real e constante do Estado dentro dos presídios, todos os dias. Sem isso, classificar o PCC como organização terrorista é só um gesto, um capítulo do teatro político, enquanto o vazio de quatro anos sem plano concreto continua exatamente onde estava.

Matéria originalmente publicada no blog "Diálogo Digital com Fábio Jabá" em 29 mai 2026. Ler a versão original no blog
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